O grau de risco por CNAE é a nota de 1 a 4 que a NR-4 dá a cada atividade econômica: quanto maior o número, maior o perigo que aquele tipo de trabalho representa — e é o CNAE da empresa, listado no Anexo I da NR-4, que define essa nota. Escritório costuma ser grau 1; construção pesada e mineração, grau 4. Se você veio só atrás disso, está aí. O que quase ninguém explica direito é o passo a passo pra descobrir o grau da sua empresa e pra que esse número serve de verdade no dia a dia — é o que este guia faz.
Antes de seguir, uma honestidade: eu não me acidentei preenchendo formulário. Eu era montador de estruturas metálicas e, em 20 de janeiro de 2017, num dia de obra atrasada e decisão apressada, tomei um choque de 13.800 volts movendo um andaime que quatro pessoas deviam mover — éramos dois. Setenta por cento do corpo queimado, dois meses de coma, a perna esquerda amputada. Trago isso aqui porque o grau de risco é a norma tentando evitar exatamente o que me derrubou: colocar no papel, antes do acidente, que aquele tipo de trabalho é perigoso — pra empresa tratar como perigoso. Hoje sou palestrante de segurança do trabalho, com essa conversa rodada em mais de 100 empresas.
O problema
Grau de risco virou papel de burocracia na cabeça de muita gente: “aquele número que o contador usa”, uma linha no cadastro que ninguém olha. E aí mora o erro. O grau de risco não é enfeite de planilha — é o país te dizendo, por escrito, o tamanho do perigo que a sua gente enfrenta todo dia. E a partir dele a lei define quanta estrutura de segurança a sua empresa é obrigada a montar.
Um aviso honesto desde já: isto é orientação geral, pra você entender o conceito e saber onde procurar. Não substitui a análise de um profissional de segurança nem o enquadramento oficial da empresa no eSocial, que é onde isso vale perante o governo. A NR-4 é uma das normas que colocam o risco no papel — do mesmo jeito que a NR-33 faz com espaço confinado. Aqui está o mapa; quem assina a rota final é quem tem responsabilidade técnica pela sua operação.
O que observar
O que é grau de risco (a escala de 1 a 4)
Grau de risco é um indicador que vai de 1 a 4 e mede a intensidade do risco de uma atividade econômica. É simples de ler: 1 é o menor risco, 4 é o maior. Trabalho administrativo tende ao grau 1; indústria com máquina grande e energia forte tende ao grau 4. Não é opinião de quem cadastra: cada faixa está definida em norma.
A norma que manda nisso é a NR-4 — a que trata dos Serviços Especializados em Segurança e Medicina do Trabalho, o famoso SESMT. Ela foi reescrita pela Portaria MTP nº 2.318, de 2022, e traz, no seu Anexo I, a lista completa que amarra cada atividade a um grau. O nome oficial desse anexo diz tudo: “Relação da Classificação Nacional de Atividades Econômicas - CNAE (Versão 2.0), com correspondente Grau de Risco - GR”.
Onde o grau mora: o Anexo I da NR-4 (o antigo Quadro I)
É aqui que o CNAE entra. O CNAE — Classificação Nacional de Atividades Econômicas — é o código que identifica o que a sua empresa faz. E esse Anexo I da NR-4 — que a versão antiga da norma chamava de “Quadro I”, nome que muita gente ainda usa — é uma tabela grande com três colunas: o código, a denominação da atividade e o GR, o grau de risco daquela linha. Não é achismo, não é o contador “chutando”: é consulta a uma tabela oficial.
O que muda entre o grau 1 e o grau 4
Junto com o número de empregados, o grau define quanta segurança formal a empresa é obrigada a montar: grau mais alto, com mais gente, exige estrutura maior — mais profissionais de segurança dedicados, comissão interna maior. Não é castigo por ser grau 4. É a lei reconhecendo que, onde o trabalho é mais perigoso, precisa ter mais gente cuidando pra que ninguém se machuque.
Como aplicar na empresa
Passo a passo pra descobrir o grau de risco da sua empresa
O caminho é curto e você mesmo consegue fazer a primeira leitura:
- Ache o seu CNAE. Ele está no cartão CNPJ da empresa — o “Comprovante de Inscrição e de Situação Cadastral”, que você emite de graça no site da Receita Federal. A NR-4 usa a atividade econômica principal, que é justamente a que consta no CNPJ.
- Abra o Anexo I da NR-4. O texto oficial e atualizado da NR-4 fica no site do Ministério do Trabalho e Emprego, no gov.br. Procure o seu código de CNAE na tabela.
- Leia o grau na coluna GR. Na linha do seu código, a última coluna traz o número de 1 a 4. Esse é o grau de risco da sua atividade.
- Cuidado com a atividade preponderante. A NR-4 dimensiona pelo maior grau entre a atividade principal (a do CNPJ) e a atividade preponderante — aquela que ocupa mais trabalhadores no estabelecimento. Se a empresa tem uma linha administrativa pequena e uma fábrica grande, é o risco da fábrica que costuma mandar. Por isso o número final é serviço pra conferir com quem entende.
Pra que esse número serve na prática
Descoberto o grau, ele não fica parado. Ele aciona obrigações concretas:
- Dimensionamento do SESMT (NR-4). É o uso principal. A NR-4 cruza o número de empregados com o grau de risco para dizer se a sua empresa precisa ter médico do trabalho, engenheiro de segurança, técnico de segurança e enfermeiro — e quantos de cada.
- Dimensionamento da CIPA (NR-5). A Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio também é dimensionada a partir da atividade econômica e do número de empregados: o mesmo CNAE alimenta o tamanho da sua comissão. Como funciona e quem eleger, eu detalhei no guia o que é CIPA.
- Contribuição previdenciária pelo risco (RAT/SAT). A empresa paga uma contribuição sobre a folha pelo risco do trabalho, o RAT (antigo SAT), que também é maior quanto mais arriscada é a atividade. Mas atenção a uma confusão que derruba muita gente, inclusive texto grande na internet: o RAT/SAT sai de outra tabela, da legislação da Previdência, e não do grau de risco 1 a 4 da NR-4. São dois enquadramentos diferentes que usam o mesmo CNAE. E o valor do RAT ainda pode ser ajustado pelo histórico de acidentes da empresa, pelo Fator Acidentário de Prevenção (o FAP). Como é dinheiro e é fiscal, quem fecha esse número é o contador junto do eSocial — não este artigo.
O erro que sai caro: achar que grau alto é só custo
Tem gestor que olha o grau 3 ou 4 e enxerga só despesa: “vou ter que contratar mais gente de segurança”. Vira quase uma torcida secreta pra o número ser baixo. Grau de risco alto não é uma multa que caiu na sua empresa — é o retrato honesto de um trabalho que machuca. Fingir que o risco é menor não deixa ninguém mais seguro; só deixa a empresa desprevenida pro dia em que a conta chega. Prioridade muda; valor não se negocia. E gente voltando pra casa inteira é valor.
Checklist rápido
Pra saber se a sua empresa está tratando o grau de risco a sério:
- Você sabe qual é o CNAE principal da empresa, direto do cartão CNPJ?
- Já consultou o grau desse CNAE no Anexo I da NR-4 atualizada?
- Conferiu se a atividade preponderante não puxa um grau maior que o da atividade principal?
- O SESMT e a CIPA da empresa estão dimensionados de acordo com esse grau e o número de empregados?
- O enquadramento oficial no eSocial bate com o que você leu na norma?
- Alguém com responsabilidade técnica em segurança validou tudo isso — e não só o contador?
Se travou em alguma pergunta, você já sabe por onde começar.
Perguntas frequentes
O que é grau de risco por CNAE?
É a nota de 1 a 4 que a NR-4 atribui a cada atividade econômica, identificada pelo código CNAE da empresa. Quanto maior o número, maior o risco daquele tipo de trabalho. A relação completa entre CNAE e grau de risco está no Anexo I da NR-4.
Como descobrir o grau de risco da minha empresa?
Pegue o CNAE principal no cartão CNPJ (emitido de graça no site da Receita Federal), abra o Anexo I da NR-4 no site do Ministério do Trabalho e Emprego, no gov.br, e procure o código. Na coluna GR, ao lado, está o grau de 1 a 4. Confirme com um profissional de segurança se a atividade preponderante não altera esse número.
Onde fica o Quadro I da NR-4?
No texto oficial e atualizado da NR-4, publicado no portal gov.br do Ministério do Trabalho e Emprego. Atenção ao nome: o que a versão antiga da norma chamava de “Quadro I” hoje é o Anexo I — a tabela que relaciona cada CNAE ao seu grau de risco. A NR-4 vigente foi atualizada pela Portaria MTP nº 2.318, de 2022.
Grau de risco é a mesma coisa que a alíquota do RAT/SAT?
Não. O grau de risco de 1 a 4 da NR-4 serve para dimensionar SESMT e CIPA. A contribuição do RAT/SAT também varia com o risco da atividade, mas é definida por outra tabela, da legislação da Previdência, e ainda pode ser ajustada pelo FAP. São enquadramentos diferentes que usam o mesmo CNAE — não confunda os dois.
Grau de risco 1 significa que é seguro?
Não. Grau 1 quer dizer que a atividade, no geral, é de risco menor — não que não exista risco. Até escritório tem queda, choque, ergonomia e saúde mental. O grau define o tamanho da estrutura obrigatória de segurança; ele não dispensa ninguém de cuidar das pessoas.
Próximo passo
O caminho técnico é direto: ache o CNAE no cartão CNPJ, leia o grau no Anexo I da NR-4, confira SESMT e CIPA à luz desse número e valide o enquadramento oficial no eSocial com quem tem responsabilidade técnica. Esse número no papel é o começo da conversa, não o fim.
Porque o grau de risco só vira segurança de verdade quando sai do documento e entra na cabeça de quem opera. É aí que a minha história entra: eu subestimei um risco real num dia de pressa, e paguei com dois meses de coma e uma perna. Conheça a palestra de segurança do trabalho ou me chame direto pra levar essa conversa pra sua equipe — porque, no fim, todo número de risco é gente que tem motivo pra voltar pra casa.